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O verbo


Várias fases da minha vida passaram e todas tiveram seu verbo. O verbo odiar, o verbo descobrir, observar, dançar, embebedar e vários outros. Há algum tempo, conjuguei o verbo romper e depois dele veio o engatinhar, seguido do avaliar e do sentir. Hoje, aliás, há alguns meses, descobri o verbo contemplar. E que verbo! Ao contrário do que pode parecer, contemplar não significa ser um observador distante e passivo, mas sim, alguém que absorve a essência de tudo, de um raio de sol, de uma conversa com as amigas, de caminhar nas calçadas e admirar a arquitetura urbana (que é caótica), de um bom filme, de sua própria companhia, de uma música, de um almoço com a família. E dos bofes lindos com suas barbas ralas a desafiar nossa sanidade e auto-controle. Contemplar é um estado de espírito, uma maneira de curtir a vida por inteiro. Quando eu contemplo a lua cheia, por exemplo, sinto uma energia boa, uma força enorme para decidir, agir, viver. E jogo beijos para ela, sou uma fervorosa discípula.

Para contemplar eu aprendi a relaxar, amadurecer. Acho que só tendo segurança de quem a gente é e paz de espírito é que aprendemos a realmente enxergar a vida que se desenrola, se apresenta em cada segundo da nossa respiração. Posso contemplar com real participação, com entrega. Sinto uma integração com a vida, com a realidade e comigo, agora entendo realmente a frase tudo é uma coisa só. Contemplar é estar no mundo, de verdade. Sinto que hoje sou inteira, conectada com essa vida que pulsa o tempo todo. Contemplar é não ter pressa, aliás, nesse mundo moderno, rápido, desaprendeu-se a paz necessária para participar integralmente da vida. Contemplar é como fazer parte do Universo lucidamente, com um calor no peito e uma vibração real. Mas, antes de tudo, precisei contemplar a mim. E gosto do que vejo e do que vi. Entendi minhas sombras, tenho uma boa vizinhança em minha mente. E me aceito, embora ainda questione muito, serenei em relação a quem já fui.

Contemplei meu caos e não me abalei, aprendi a conviver com as dores, só assim elas passam e liberam o caminho para as alegrias tranquilas. Contemplo as criaturas que me rodeiam, deixo a luz me iluminar e a escuridão me abraçar. Contemplo meu coração e não luto contra ele e nem com a intuição, aliás, quando contemplamos, a percepção de tudo e de todos aflora e dá segurança para as decisões. Me sinto em paz, embora algumas turbulentas tentações teimem em assolar meu pensamento, ainda assim tento erguer os ombros e os olhos para esse mundo imenso que há por aí. E  para o universo infinito que existe em mim.

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