Pular para o conteúdo principal

Eu e o sapatinho de cristal


Nunca sonhei com príncipes, engraçado isso. Talvez quando era criança ou no início da adolescência, mas, em geral, não procurei os príncipes, aqueles perfeitos, roupas de grife e tal. Claro que sempre houve alguma idealização, mas o Tempo, esse senhor sábio, ensinou que não sou perfeita e falho muito. Não é justo exigir tanto e não olhar para meus atos. Aprendi a me perdoar e a perdoar meus pais, minha família e algum que outro safado que tenha me feito de boba. Mas, e sempre tem um mas, o outro faz conosco o que permitimos que faça. E eu, nunca, mas nunca mesmo, fui fácil de lidar e entender. Sou uma Merida, gosto de escrever minhas regras e seguir minha lei. Não tenho o cabelo ruivo, o que é uma frustração para mim, mas os olhos são da mesma cor dos da princesa guerreira. E a rebeldia, agora direcionada, também.

Sou uma princesa que não usa coroa e nem roupas luxuosas. Gosto do minimalismo do preto e do roxo. Branco, muito às vezes e vermelho, idem. Não uso jóias, gosto de bijouterias bonitas, mas nada de excessos. Adoro maquiagem e botas pretas de cano longo, por favor. Sou uma princesa ogra, meio mulher, meio fera, metade fogo e metade gelo. Queimo e sumo, na mesma proporção. Não gosto de lugar comum, declarações apaixonadas nem nada exagerado. Gosto de toques e sutilezas, de sinceridade e entrega. Ah essa sinceridade e essa entrega, tão difícil de haver, tão almejada, tão minha e tão sua, príncipe ogro. Não sei quem é você e nem se algum dia surgirá na minha vida, mas você será um ogro porque é humano, não me trará um sapatinho de cristal para calçar em meus pés. Até porque, pobre de você o dia em que me presentear com calçados, se ferrou, meu amigo. Nunca mais lhe darei paz ao passar em frente à uma vitrine de calçados, hehehe!

Mas confesso que esse gesto de se ajoelhar em frente a quem se ama e entregar o que quer que seja, mesmo que um gesto ou um beijo, não importa, é de uma singeleza linda. Para mim, não é humilhação alguma se render ao amado. Meu orgulho sempre me deixou defensiva em excesso, ainda sou um tanto, mas não como antes, em outros tempos era apenas uma fera se defendendo do mundo. Hoje sei que render-se pode ser poético e de uma beleza tão etérea que as lágrimas viriam aos meus olhos. Porque o amor me comove e espero comover a quem amar um dia.

Ainda sinto muito medo em mim, não sei se esse príncipe ogro conseguirá romper essas defesas todas, sou um castelo feudal com um fosso enorme em volta. Não quero um homem perfeito, quero um ser humano. Sou humana também e sei que posso magoar a quem amar. Então, não exijo o que não posso dar. Amor sim, tenho demais em meu coração, mas, por oras, ele está blindado e protegido pelo meu espírito Merida. Então, ogro que não conheço, ogro errante nesse mundo tão injusto e que não  entende gente como nós, que tem couraça e arco e flecha para defesa. Somos sensíveis em um mundo de ímpios e covardes, sentimos a vida de maneiras tão sublimes que a maioria sequer percebe. Por isso, não traga um sapatinho de cristal, traga seu coração na embalagem mais linda que meus olhos e minha alma enxergam: você.

Comentários

  1. Amei. que lindo guria. Mostra que realmente você é como eu imaginava. Além da sensibilidade a força. e que venham os novos amores e se lance neles, sedenta....a vida exige esta busca. Beijokas Heide

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Obrigada.

Postagens mais visitadas deste blog

Amor é merecimento

Um rompimento sempre dá espaço às reflexões sobre o fim, quando escolhemos cair fora gostando muito da pessoa, ou quando há mais dúvidas do que certezas. No meu caso já fui muito magoada e caí fora porque não mereci o tratamento que recebi, mas isso já foi superado e essa situação me levou a perceber o motivo de me sentir tão entristecida. Pode ser que não seja possível escolher por quem nosso coração vai vibrar, quem vai nos fazer leves e tal, mas sentimos os primeiros sinais. Eu senti, mas fui cega para não perceber e cair fora antes. 

Apesar de alguém até contrariar esse meu pensamento, aprendi que amor é merecimento. Não vou mais entregar meu coração assim, por alguém que não faça por merecer, alguém que não demonstre muita vontade de estar por perto e que se importe. Sou naturalmente esquiva e arisca, apesar de já ter mudado bastante, sempre tenho a tendência à fuga. Mas quando sentimentos, emoções estão envolvidos, dá uma embaralhada, eu sei. No entanto, mesmo que sinta a proximi…

No próximo ano, lambuze-se

Os votos dessas festas de final de ano são iguais e repetidos ad infinitum mundo afora pela sua família, vizinhos, amigos, desconhecidos, desconfio de que até os mortos os repetem em seus túmulos. Blábláblá sem emoção jogado ao vento e nos ouvidos incautos de quem foge dessa hipocrisia morna e irritante. Portanto, serei sincera: desejo que nesse próximo ano, você se lambuze. Fique com o rosto sujo e a alma respingada pelo lambuzo. Descasque uma manga e coma sem cortar em pedaços, sinta o suco escorrendo pela sua boca, as mãos meladas. Lambuze-se. Vá mais vezes à pracinha de brinquedos com seus filhos e se lambuze de areia, sujeira e amor. Abrace sua mãe e seu pai, faça mais brincadeiras irônicas com seus irmãos, evite a irritação com comentários alheios. Lambuze-se de tolerância. Sinta que você pertence a você, mas permita que alguém se lambuze de você. Permita que se lambuze com suas palavras, seus gestos, suas atitudes, seus olhos, seu corpo.
No próximo ano, lambuze-se de amor-própri…

Sobre todas e todos os dias

Quando é noticiado violência contra a mulher, como agressões ou estupros, sempre há pessoas (entre elas algumas mulheres) atacando a vida e hábitos da mulher. Por ser sensual ou não, pelas roupas, por ter filho, pelo comportamento, o que, francamente, mesmo que fosse uma senhora freira, religiosa e que usasse um hábito tapando seus pés também seria motivo para essa cultura do estupro tomar forma. Fosse eu, você ou alguma parente ou amiga sua seria igualmente horrível e asqueroso o ato criminoso que homens cometem todos os dias contra mulheres. Na maioria dos casos não são loucos ou doentes, apenas terrivelmente mal-intencionados. 
E qual a parcela de culpa da sociedade nisso tudo? Toda a culpa. Quando hiper-sexualizam a mulher, objetificam e põe uma mulher contra a outra, quando a aparência é julgada, quando o desrespeito é a regra e incentivado, mulheres são e serão estupradas e abusadas todos os dias. Quando o não de uma mulher for interpretado como charme ou falso desinteresse, enqu…