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Ex que não vale nem a lembrança


O mundo capitalista atual é tão, mas tão maluco que inventou uma categoria de ex que nasceu obsoleta e moderna, ao mesmo tempo: o ex que não vale nem a lembrança. Obsoleta por ser carcomida pelo antiquado e onipresente machismo que trata as mulheres como pertences de um homem e moderna, porque o capitalismo ensina que o dinheiro vale. Se a mulher tem mais, o cara não quer perder a mordomia, se o bofe tem mais, não pretende perder o brinquedinho que tanto investiu. Enfim, a mulher não tem o direito de decidir se quer ou não continuar em uma relação. Escuto histórias absurdas sobre ex (e aqui incluo As ex também), dignas de contos fantásticos e surrealistas, mas que estão presentes na casa de sua amiga, vizinha, irmã, prima, tia, colega de trabalho. Ex que pretendem dominar a vida da ex-mulher, ex que são perseguidores tenazes, ex agressivos fisicamente, ex que perseguem os atuais relacionamentos, ex que fazem escândalos no trabalho, enfim, que tem uma ou todas essas atitudes. E todos são igualmente incapazes de lidar com a frustração, prepotentes e nunca foram bons parceiros (se fossem bons, elas não os largariam, não é?). Alguns tem o agravante de que os familiares estimulam esse comportamento, esquecem as mães e irmãs que elas mesmas podem ser vítimas dessas atitudes.

É uma chaga aberta na sociedade moderna o comportamento corrosivo que esses e essas ex adotam. Demonstra que as igualdades civis e relativas ao gênero são mero artigo de decoração em um mundo em que vale o que parece e não o que é. Aceitar o fim de uma relação e o fim ou a não existência de um amor é um fato que ato nenhum mudará, nem o assassinato ou agressão física, moral e sexual. Nada vai fazer com aquela pessoa volte, muito ao contrário, a afastará ainda mais do desgostoso com o fim da relação. O desgostoso (e um tanto quanto fora do ar, convenhamos) acredita que minando as tentativas daquela pessoa ser feliz, ela voltará para ele (a), afastando os pretendentes, vigiando seus passos, atacando sua integridade física e moral, enfim, atitudes e pensamentos que são agressivos inclusive ao agressor. E nada fará voltar essa pessoa que um dia se foi, a não ser, lógico, que ela esteja tão doente quanto o(a) ex. Esse não é o caso da maioria das pessoas que resolveram dar um fim a um relacionamento, mas vejo alguns homens e mulheres (por ego ou vaidade ou neurose, ainda não sei) recaírem e alimentar a sandice do(a) ex. É triste perceber que relacionamentos são mercadorias, as pessoas precisam vender a idéia de que tem e estão felizes com alguém, embora seja tudo fachada.

Pessoas e sentimentos são mercadoria e propriedade. Estão associados ao sucesso profissional ou sei lá qual neurose mais absurda a pessoa que não aceita o fim desencadeia. É como se fosse impossível alguém não amar ou não desejar mais o desgostoso, como se ele(ela) fosse imprescindível à vida do outro e, francamente, não é e nunca será. Imprescindível é comer, beber, viver, ninguém é insubstituível nesse mundo. Agredir não é solução, perseguir não é solução, vigiar os passos não é solução, a solução é ajuda psicológica e cair na real que a vida continua e continua para todos. As pessoas que agem assim têm dificuldade em aceitar a frustração, em aceitar que, enfim, nem tudo é como queremos e desejamos, ainda bem. Curtir uma fossa é legal, mas acredito que depois de no máximo dois meses é hora de se encher da situação e tocar em frente. Ser rejeitado dói? Dói muito, duvido alguém que não tenha passado por isso ou que não tenha saído de uma relação mesmo gostando muito da pessoa, mas a vida pede passagem. É ótimo perceber que sempre há uma esquina nos mostrando que vale a pena estar nesse mundo. 

É triste e tenho pena de gente assim, que não aceita os fins, que não enxerga a chance de um novo começo, uma nova atitude, de rever seus conceitos e aceitar os erros (que houveram e são muitos) e perceber a chance de se renovar, se reinventar. A vida é mais ampla e mais bonita que um pé na bunda, francamente. São os amigos, a família ou até o trabalho que podem nos mostrar novos caminhos. Quem sabe tentar um hobby, começar as aulas de dança, fazer um trabalho voluntário ou retomar os sonhos de adolescência? Realizar sempre, descobrir novos sentidos para a vida ou até dar uma boa olhada para aquela/aquele colega de trabalho, amiga(o) dos seus amigos, vizinha(o), sei lá, ser criativo(a), abrir seus olhos e realmente ENXERGAR que há um mundo além do cai-fora-da-minha-vida. É horrível escutar isso? É, mas pior é remoer um final que é e sempre será um final, atormentar a vida de uma pessoa que um dia já esteve ao lado não mudará a dor que o rejeitado sentiu. Mas a maneira com que ele(a) lida com a situação é que fará toda a diferença. E que essa diferença pode ser construtiva, em vez de perseguir e atormentar a vida de alguém que não quer mais saber de estar junto do desgostoso, que ele(a) tenha novos interesses, que use a energia de perseguir para atingir objetivos concretos, um melhor salário, uma viagem ou até um novo amor. Porque o fim de uma relação não significa o fim de tudo, amor-próprio é sempre muito melhor que amor nenhum.

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