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Carta da despedida


Eu pensei em tudo que perderemos, mas você não decidiu e quanto a situação é essa, deixamos ao sabor do vento nossa vida e ela pode se espatifar em um rochedo. Então, como deve saber, eu estou decidida. Cansei dessa situação por vários motivos e já deve ser do seu conhecimento quais são. Não o faço por falta de vontade de estar com você, ao contrário, mas é por falta de vontade sua. Ou comodismo. Ou covardia. Ou insegurança. Ou tudo. Mas fico triste, sabe, com histórias que podem ser tudo e viram nada. Histórias que podem ser divertidas, poéticas, mágicas e vibrantes e se perdem por sermos seres indefinidos e covardes. Falta postura e atitude. Fico triste pelo conhecimento um do outro que pode ser tão legal, tão bonito. Mas que se transforma em um ponto de interrogação. Sei o que eu e você perdemos, mas talvez você não saiba. Talvez, afinal, você não saiba ganhar, apenas perder seu tempo, afeto, cuidado e muito de você. Deixa pedaços no caminho, nunca está inteiro. Agora, por exemplo, pode jurar que está tranquilo e feliz. Mas seu coração pode não acreditar nisso (a sensação de falta é um forte indício). 

Você nunca saberá como é adormecer ao meu lado várias noites de sua vida e como gostarei de enroscar os dedões do pé, assim, no seu. Nunca saberá como é sentir meu abraço, durante o sono, em seu corpo, que desejo e gosto. Não saberá que sou de poucas palavras quando acordo, pela manhã. Não ficará deslumbrado ao me ver arrumada para ir com você a algum dos seus eventos ou apenas para um saída. Nunca invadirá o banheiro enquanto tomo meu banho e nunca viverá o sexo bom que faremos embaixo do chuveiro. Nunca se perguntará porque preciso de tantos sapatos quando enxergar mais um em meus pés. Nunca se perguntará o que tanto converso com minhas amigas ao me ver dependurada no telefone ou escutar as gargalhadas na sala de sua casa. Nunca entenderá meus complexos pontos de vista e nunca ficará pasmo nas curvas do meu raciocínio. Aliás, nunca ficará se perguntando por quê não se sacia das curvas dos meus quadris e pescoço.

Você, também, nunca sentirá orgulho das minhas conquistas e se perguntará se merece meu amor. Aliás, nunca se perguntará o que o faz gostar cada vez mais de mim. Nunca me questionará sobre termos um filho e nunca saberá minha resposta. Nunca almoçará, aos domingos, com  minha família e nunca provará minha lasanha.  Nunca verá minha família maluca conversando todos ao mesmo tempo. Nunca se divertirá com meus irmãos debochados e nunca escutará minha irmã contar as histórias tragicômicas sobre os excessos de minha mãe. Nunca sentará no sofá conversando sem pressa com meu pai. Não se comoverá com minha mãe. Nunca saberá como meu cachorrinho é carinhoso ao deitar a cabecinha branca em sua perna. Nunca verá um pouco de mim através das minhas origens. Aliás, nunca me desvendará. Nunca se perguntará, após algum tempo, se uma vida será suficiente para saber sobre mim, trocar idéias e escutar canções. Não lerá mais poesias escritas para você e nem como lhe presenteio com textos. Aliás, não lerá mais textos escritos para você. Você nunca saberá como é se descobrir me descobrindo, como na canção do John Mayer, Your body is a wonderland.

Não saberá como lhe abraçarei ao chegar em casa e o tamanho da minha saudade quando voltar de alguma viagem. Nunca verá como sou ridícula, às vezes, e como me divirto com isso. Nunca se cansará de caminhar por entre vitrines comigo. Nunca mais verá meus olhos fixos nos seus e ouvirá meu pedido para falar meu nome enquanto transamos. Não saberá das minhas manias e esquisitices, não se irritará quando puxar o elástico da calcinha na rua. Não ficará preocupado ao ver algum amigo seu ou desconhecido dar atenção demais e olhares gulosos demais para mim. Nunca ficará louco de ciúme ao imaginar os homens com quem já estive. Não saberá como seu coração dará pulos no peito ao saber que decidi por você e as escolhas que farei para estar ao seu lado. Aliás, não saberá as escolhas que você fará para estar comigo e o profundo afeto e comoção que causará em mim ao saber disso. Não saberá sobre meu reconhecido estabanamento e como sou avoada. Não verá meu sorriso ao ajeitar alguma coisa que você não conseguiu guardar no lugar e ao achar suas chaves, pelo que sei, tem o costume de esquecer onde as guardou. Não perceberá como sou agregadora e a insistência para dar mais atenção aos seus amigos-irmãos, não saberá como gosto de receber gente em casa e a boa anfitriã que sou. Não se irritará com meus discursos prolongados (hehehehe) para, após, dar boas risadas. Não ficará totalmente sem saber como agir em minha TPM.

Não saberá como é o "nós", eu e você. Nunca se perguntará se me escolheria de novo e sempre saber que sim, apesar de tudo e se eu faria o mesmo. Não terá orgulho das minhas conquistas e não verá em meus olhos como admiro e me orgulho do homem e profissional que você é. Nunca incentivará meus sonhos e planos e não saberá o apoio incondicional que lhe darei, em qualquer circunstância. Nunca terá essa sensação de alegria serena ao me abraçar para adormecermos ou quando enxugar minhas lágrimas no cinema, em algum filme. Nunca saberá como você é ao meu lado e o que aprenderá comigo e vice-versa. Nunca se preocupará ao saber que andei sozinha pela rua, à noite, ou quando adoeço. Não saberá o carinho e o cuidado que terei com você. Não saberá como posso amar quem veio de você. Nunca saberá o carinho que terei pela sua história. Aliás, também não saberá o carinho que terá por mim, ao ouvir a minha. Mas o que saberá, agora, é como será não mais saber de mim. De tudo que não conhecerá, ficará o conhecimento de minha ausência. Saberá o que é a distância e a falta de notícias minhas. Saberá como sua vida ficará sem que eu esteja por perto. Na verdade, acho que nem liga. 

Dos desconhecimentos, ficará o vazio no bate-papo e a curiosidade e vontade de telefonar para mim, ouvir minha voz. Ficará sua curiosidade ao ler alguma atualização de status nas redes sociais. Ficará a lembrança da minha pele, meu beijo, meu gosto. Ficará a saudade do que não vivemos. Sua falta em dizer sim ou não para mim me fez decidir por nós. Eu vivi anos antes de lhe conhecer, não vou sofrer esbagaçadamente. Posso gostar muito de você, mas sempre, sempre mesmo, vou gostar muito mais de mim. Sempre decidirei pelo caminho que me trouxer respeito próprio. E, nessas linhas, está toda a ausência que minha vida pode significar. Aqui, decido pelo adeus, pelo ponto final. Se for um até breve, uma pausa, depende de como você escreverá essa história após esse ponto final. Que pode não ser, também, um final.


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