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Quando me transmutei em mulher



Em termos de amor, sempre fui uma ogra. Fugia desesperada ou botava a correr qualquer homem desajuizado o suficiente para se aproximar. Minha frase sempre foi "os que não fugiram, botei a correr". E escondia meu medo atrás da arrogância e muitas garrafas de bebida alcoólica, atitudes defensivas e humor ácido. O único cara que namorei por muito tempo foi exatamente aquele que não ameaçava meus sentimentos, alguém que decidi ser uma boa namorar, quase pedi para preencher um formulário. Enxerguei nele minha vontade de ter alguém e não a possibilidade de amar e foi exatamente por eu ter absoluto controle sobre as emoções que embarquei. Os outros (poucos) que balançaram meus sentidos e meu coração foram solenemente destratados ou ignorados, até mantidos à distância, tudo em nome desse medo enorme de me entregar, ser rejeitada ou simplesmente de não saber lidar com a perda. Sempre me perguntei como seria se morresse o alvo do meu afeto e a resposta não me agradou. Medo de que não houvesse sincronia, essa palavra mágica que considero primordial num relacionamento. Como li em um texto, formar casais é fácil, o difícil é formar parcerias.

Então, eis que meu medo foi desafiado e a ferinha enjaulada com atitudes de menina precisou virar mulher e ir atrás, perguntar realmente para seu coração qual o seu verdadeiro desejo. Precisou descobrir que amadurecer dá muito trabalho, que desejar é um tormento, mas que sentir é um bálsamo. Precisou aprender que a vida é uma montanha-russa e o que nos dá segurança não é o carinho, mas também a companhia, que pode ficar de pernas para o ar, mas que uma mão segure a sua e lhe diga que tudo ficará bem. Precisou ver nos olhos de quem deseja as dúvidas e o medo que lhe são conhecidas, precisou sentir que uma emoção não é feita de paixão louca e euforia, mas de erros e acertos, de dúvidas e sentimentos. Amar é uma tortura, então quero ser torturada, golpear minha vida e sair do lugar comum. Descobri que é fácil lamentar e desistir, mas que seguir seu coração é uma das atitudes mais difíceis que podemos ter, seja para o trabalho, família, seja para os afetos. A vida ensina e cobra a lição de casa.

A pergunta que me fiz foi que raio de mulher quero ser, daqui para a frente, que vida me imagino levando. E quem eu quero nessa vida. A partir dessa incômoda reflexão, descobri que molhar travesseiros e arrotar queijo e azeitona enfiados goela abaixo em alguma noite cinéfila e solitária não são o meu ideal de vida adulta, apesar de curtir muito a minha companhia, foi a que esteve comigo a maior parte do tempo e, francamente, cansei um pouco dela e dos meu dilemas. Quero dividir o picadinho de queijo, azeitona e pimenta que mastigo assistindo algum filme e segurar na mão de alguém nas cenas fortes, quero um roteiro de cinema comum, usual e encantadoramente simples para viver a dois. Quero a profundidade da minha cabeça apoiada no ombro dele, sentir o perfume que ele deixa no lençol e o calorão que fico quando dormimos juntos. Quero saber os seus dilemas, escutar suas histórias e palpitar ferozmente quando percebo alguma atitude ou pensamento errados (em minha opinião). Quero poder implicar com as ex dele e, também, pensar secretamente que elas tinham alguma razão. Quero trabalhar e chegar em casa com uma proposta de comer na sacada e encher os ouvidos dele com minhas agruras dramáticas e escutar seu inevitável deboche. 

Quero sim, uma vida de sucesso. Mas não o sucesso relativo de fama, riqueza e glamour. Quero o sucesso absoluto de uma vida dividida, uma vida em que o cenário tem outro personagem que não eu mesma. Quero meus cãezinhos subindo no sofá e escutar as reclamações dele, mesmo que inúteis. Quero suas manias, seus defeitos, seu calor. Quero o admirável desafio da convivência e dos domingos ao meio dia. Quero fingir que minha cólica é mais forte do que na realidade é, quero que compre analgésico para mim e esquente água para a bolsa de água quente. Quero, acima de tudo, que minha caverna escura seja, enfim, invadida e iluminada.       

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