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Sobre opiniões e bundas



Há muito tempo esse título surgiu na minha cabeça. Porque (e a frase não é minha) opinião e bunda todos tem. Muitos dão as duas, outros uma de cada vez e ou apenas uma. Como não fujo da luta, darei a minha (opinião). Sou daquelas pessoas que, talvez, os reacionários chamam de subversiva e os revolucionários e subversivos de ocasião chamam de reacionária, acomodada e egoísta. Fazer o quê, vejo o mundo sob outro prisma que não o A ou B. Me acredito como subversiva e tenho até um certo preconceito com os que nasceram abastecidos financeiramente ou que vivem num mundinho LVMC. Sim, gosto de sapatos e maquiagem, mas não cometo loucuras para comprar o que quero. Uma coisinha de cada vez. E sim, acho que os mais abastecidos não fazem ideia do que se passa com os menos. Mas pode ser um preconceito meu, admito. Mas ninguém pode me acusar de não ter ideias próprias e defendê-las argumentativamente sem ser lugar comum.

Na verdade, possivelmente eu seja mais abastecida e nem me dê conta. A diferença é que não torço o nariz para pessoas humildes, já fui à casas de amigas em lugares longínquos e sem asfalto e cujas residências eram simples. Observo tanto quanto falo, talvez até mais. Sou totalmente favorável à greves e manifestações. Mas minha visão é diferente, só isso. Há anos atrás, gritar nas ruas, panfletar, tomar conta de prédios públicos poderia surtir efeito, em regimes de exceção. Mas nem o Brasil vive esse regime e nem os tempos são iguais. Tomo por exemplo as universidades federais e as greves de seus professores. Antes, havia muito mais apoio aos grevistas e suas reivindicações, hoje a sociedade parece cansada e desacreditada disso. Mudou a greve ou mudou a sociedade? Faz alguns anos, comentei com amigos que seria necessário que o comando de greve procurasse a sociedade e fizesse alguma atividade diferenciada do que sempre foi feito. A resposta? Ah, não funciona. Certo, continuem assim, pensei. Se não tentarem, não funcionará mesmo. E os alunos em imensa maioria que apoiavam a causa, agora estão afastados dela, não acreditam que os professores queiram mais do que apenas aumento. Como agir? Boa pergunta. 

E as manifestações, ah, as manifestações de um povo sofrido. Povo esse que, aliás, há 200 anos ou mais sofre, mas que tão carinhosamente foi lembrado apenas agora. Seis anos atrás houvesse a mobilização e que esta fosse mensal, em dia e hora combinados, com movimentação legal e pacífica eu daria todo meu apoio. Iria lá, inclusive, se não todos os meses, pelo menos em alguns. Minha experiência em movimentos estudantis não foi muito grande, mas já frequentei reuniões do DCE da universidade na qual me formei. E sei bem qual o objetivo dessa que se faz agora: nada a não ser desequilibrar a gangorra do poder em favor de algum candidato que é o articulador disso tudo, provavelmente. Investimentos em educação? Pelo fim da corrupção? Ahan, sei. E pela volta do Papai Noel descendo a chaminé. Também quero a volta dos ovos de açúcar na Páscoa. Adorava eles e meu irmão os roubava de minha cesta. 

A questão é como? Exatamente qual o ponto a ser atacado e qual sua solução? Exigir isso e aquilo, abaixo a corrução, abaixo a inflação, abaixo isso, abaixo aquilo, anti-isso, anti-aquilo. Engraçado ver amigos fanáticos pelo seu time de futebol dizendo que só se interessam pelo time e não gostam da seleção. Que é para boicotar a Copa, que futebol é o ópio do povo. Mas sequer cogitam em ficar sem assistir seu time jogar. Percebe? Claro que não somos coerentes o tempo todo, alguma vez a gente derrapa, mas não precisa muito para perceber que o discurso dá pé e a retórica é falha. 

Sobre a corrupção parece que não entra na cabeça de muitos segmentos da sociedade que essa vem de baixo, está dentro das nossas casas ou prédios. Quando comentei pela enésima vez com um conhecido que a mudança deve vir de baixo e não de cima, de que os políticos são o espelho da sociedade e que não adianta reclamar da corrupção se o cara corrompe e é corrompido por um gato de tevê a cabo, de eletricidade, por alguma vantagem qualquer. O que ele me respondeu? Que é diferente quem rouba vinte reais de quem rouba vinte milhões. Ora, então, uma mulher que faz um boquete por dez pilas é diferente da que faz por 500? Prostituição é prostituição, corrupção é corrupção. E, facilita, o boquete de dez é mais bem feito. O cara se acredita o safo.

Esses revolucionários de ocasião esquecem que nada muda de uma hora para outra e que mudanças são mais complicadas do que parece. Usar o Uruguai como exemplo é risível, quantos cabem no Brasil? A mudança verdadeira é não apoiar o amigo que fura fila ou o parente que se vale de algum conhecimento para obter vantagem política ou financeira, para conseguir vaga em uma universidade ou bolsa de ensino em instituições particulares. Mas daí pode, afinal, os errados são os políticos, não é?  Quem faz a política somos nós, se perceber, onde há uma sociedade há política. Na minha casa, na sua, nas Igrejas, nas empresas. E os políticos e o sistema são representações nossas. Como afirmaria um sociólogo, não há relação humana sem uma relação de poder. Brasileiro tem que perder a mania de sempre achar culpados para tudo e enfiar a própria merda embaixo do tapete "eu posso, o outro é que não pode".

Mais motivos pelos quais não acredito nessas manifestações. um exemplo de pauta que não é fashion, mas cai de madura: o rápido envelhecimento da população brasileira. Em trinta anos, atingimos patamares europeus, mas os europeus levaram quase um século diminuindo a taxa de natalidade. É um problema sério, não só de estrutura, mas até previdenciário. Por exemplo, as novas construções deveriam ser adaptadas para pessoas mais idosas passarem com cadeira de rodas, o piso especial para não haver quedas. E isso é o mínimo. Um problema sério que vem sendo esquecido há anos. E falo disso com categoria porque sou cuidadora da minha mãe e sei muito bem o que é envelhecer em um país para jovens. E a questão previdenciária é um bicho espinhoso e que é deixado de lado há anos. Outra questão são os gastos com saúde pública oriundos do envelhecimento da população. Se houvesse medicina intensivista no Brasil, seriam muito menores do que são. O enfoque aqui deve mudar do tratamento das doenças para a prevenção. Por que causas muitos sérias como essa são deixadas de lado é que não acredito na autenticidade dessas manifestações.

Outras pautas sérias são o Novo Código Florestal, a Reforma Tributária, a revisão do Código Penal, a violência contra as mulheres, parar o sangramento dos cofres públicos pelas prefeituras (sim, são elas onde mais há problemas) equipar e treinar os profissionais de saúde adequadamente e por aí vai. Quantos assuntos urgentes, nossa! E que a sociedade está deixando de lado. Nem citarei o incêndio da boate Kiss, que é da minha região. Então, com a quantidade de pautas genéricas e uma população se manifestando pelas ruas, num período onde o mundo está acompanhando um grande evento esportivo pode ser um tiro no pé. O Brasil pode estar em um momento de alta da inflação, mas não pode ser esquecido que o mundo cambaleia tentando sair de uma crise econômica européia e norte-americana. E que pode não considerar seguro investir em um país com esse momento. Encerro por aqui a minha visão sobre isso tudo e que devido à ela, não apoio essa manifestação em específico. Até porque, duvide-o-dó que não tenha um partido político detrás. 

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