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Do amor e do retorno


Durante nossa curta (quem sabe intensa) passagem pela vida queremos amar, ser amados, prazer, felicidade, sucesso (o conceito varia para cada um), dinheiro, casa, carro e mais coisas e experiências que julgamos necessárias para habitar esse bioma natural e autêntico (tantas vezes usurpado e tratado com desleixo) chamado Terra. E todos esses desejos, expectativas, anseios, projetos, sonhos e objetivos são projetados em uma situação, emprego ou pessoa. É aí que a porca torce o rabo, amigos, porque podemos controlar nosso tempo, mas o trânsito existe para provar que nunca há tempo suficiente, um engarrafamento, um imprevisto na figura de um pequeno acidente ou  vizinho que quer reclamar de algum vazamento em nosso apartamento podem nos atrasar e ao nosso objetivo. Podemos esperar sucesso em uma empresa pública ou privada, mas o acaso pode mostrar que isso depende muito mais dos outros do que de nós e do nosso esforço, pois acreditamos fazer o melhor, mas a visão de uma pessoa desse "melhor" varia de um para o outro. E é exatamente na figura do outro que eu quero chegar, na percepção que o outro tem de nós e como retribui as nossas expectativas e sentimentos, mais propriamente nas relações afetivas. O retorno não é o mesmo, nem pior, algumas vezes melhor, apenas diferente.

Pessoas e suas experiências me inspiram muito e essas tergiversações surgiram ao ler postagens de uma amiga nas redes sociais, além de uma boa conversa com outra. Amar alguém, sejam os pais, irmãos, amigos, filhos ou quem escolhemos para entregar nossa saliva, nosso sexo, nosso coração e uma parte significativa da nossa vida é doído, difícil, exige autoconhecimento e reavaliação da nossa maneira de viver. Amar exige o abandono de velhos hábitos e da mania horrenda de ser egoísta e sensível apenas aos nossos anseios, ignorando ou minimizando o anseio ou a dor alheia. Amar é viver com nossa melhor parte, nosso bem mais precioso entre o tudo ou nada: Amar não pode ser um meio termo. Amor precisa de amor-próprio e da percepção do outro como alguém diferente, com experiências e bagagens diferentes, expectativas diversas e uma maneira de demonstrar esse afeto que pode não ser a que gostaríamos, mas que é tão ou mais intensa do que a nossa. Um exemplo é a relação de uma amiga, um "namoramento" de vários anos, em que ela, após muito se debater e sofrer por seu namorido não retribuir o sentimento como ela gostaria, entendeu que ele a amava muito, apesar de não falar, pois sempre estava disposto a auxiliá-la nos cuidados com os pais dela, suas preocupações e dificuldades rotineiras ou não. A maneira de olhar, as brincadeiras provocativas que faz apenas para ela, os testes, tudo demonstra a sua importância na vida complexa dele. Ele procura entende-la, tarefa muito difícil, acredite! E, mesmo orgulhoso e cheio de si, ele quis retomar a relação após uma curta, mas séria, desavença que tiveram, passando por cima da áspera discussão que aconteceu.

O amor é estranho, maluco e doído. É maluco porque precisamos basear nossa relação apenas no que sentimos, a insegurança abala e muito; precisamos costurar uma colcha com os retalhos ora coloridos, ora cinzentos que o outro nos dá. É estranho porque não há nada mais absurdo do que confiar, mesmo quando nosso coração está com cicatrizes de histórias anteriores. E dói, pessoas que sei amarem intensa e profundamente seus parceiros (as) relatam essa dor, mas que vale muito a pena, pois os ganhos em afeto, parceria, sexo e qualidade de vida são infinitamente superiores. Entretanto, várias e várias vezes escutei a frase "gosta menos do que ele(a)" e não concordo. Ora, onde já se viu medir amor? Como se houvesse ou fosse possível uma fita métrica afetiva, fulana gosta tantos centímetros a menos do que beltrano. Que é isso, nesse mundo onde tudo tem preço e deve ser uma coisa, amor virou objeto a ser medido? Se for, é um Objeto Voador Não Identificado, porque está em nossas barbas e não o reconhecemos ou aceitamos e é fugidio, esquivo e raro.

"Do mal que me ficou a culpa é minha, pois sobre coisas vãs fiz fundamento". Camões escreveu, em minha opinião, alguns dos sonetos mais lindos e verdadeiros sobre o amor. O mal na figura do ciúme, egoísmo ou da imposição de situações prejudica mais ao que sente do que ao alvo e, ao meu ver, pode ser tudo, menos amor. O descrédito, a cegueira e o desrespeito afastam a quem acreditamos amar. Amar dói inclusive por desejarmos ver no outro o espelho dos nossos sentimentos e o outro pode demonstrar de maneiras diferentes. Cobrar demonstrações iguais entre pessoas diferentes, com bagagem e origens diferentes é um desgaste inútil. Cada um ama como sabe e há aqueles que não sabem amar alguém, apenas a si. Esqueça essas bobagens de que amor é cilada. Se há empenho e afeto, os ganhos serão mais importantes do que as perdas.  "Por um pequeno bem que desfalece, um bem-aventurar que sempre dura".
Esperar receber sempre o que damos, exatamente como damos é um tanto insano. Mas se damos posse, superficialidade e ausência, é isso que recebemos, talvez pior do que o emitido. Mas o afeto que se dá, com entrega, respeito, carinho, sempre retorna, diferente, mas retorna. É aquele beijo inesperado, é aquele agrado na cozinha, é aquele silêncio compreensivo quando desabafamos, o abraço caloroso na hora do choro, um entendimento sem palavras. Não são os presentes caros ou agrados sofisticados, o amor está num bom dia (confesso que me amar nas manhãs é difícil), num chá quente servido numa noite fria, no bombom comprado para satisfazer a TPM. Amor está em aceitar o passado do outro e suas dores, compreender suas responsabilidades e saber que, ao fim dum dia agitado e confuso ou nas piores situações (conforme a percepção de cada um) aquela pessoa estará ali, nos esperando e disposta a fazer melhor nosso dia, da maneira que só ele ou ela sabe fazer. Aos que amam, dê amor. Aos que não amam, mas querem amar, se ame antes, se perdoe, se aceite. Parece simples e é, mas o histórico hábito humano de arrumar problemas imaginários e se levar muito a sério dificulta tudo. Amar pode ser e é difícil, mas é daquelas dificuldades equiparadas a escalar a K9: apenas para corajosos.

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