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O princípio




Os começos são difíceis, imprevisíveis e angustiantes. Começar ou recomeçar exige paciência, vontade e uma coragem que pode fugir ao mínimo sinal de sair da rota. Não sabemos como agir, o que falar, a ansiedade une-se ao nervosismo e ao medo, transformando uma situação comum em uma hipérbole invisível e assustadora, uma visão do nosso pânico inconfessado em ser feliz, em continuar. Em entregar-se. A entrega sempre é um desafio, uma provocação aos nossos nervos. Caminhamos em areia movediça, em um terreno insólito e desconhecido. O novo assusta, espanta e paralisa alguém como eu. A verdade é que sair da caverna e realmente presentear-se com a luz e com o risco é aterrador. Ser feliz dá medo.

Tenho medo de me partir, envolver pelo estado de espírito bruxuleante e acolhedor que quer driblar os muros que ergui há vários anos para me defender. Nem a cerca eletrificada e o arame farpado podem dar jeito nisso. Peço socorro ao meu protetor etéreo, mas ele ri. Ri de mim, da situação, do pânico que assola meu espírito. Arriscar-se é como um tiro que não saberemos se irá reto ao alvo. Seja um novo emprego, uma nova cidade, uma nova casa, uma nova relação, é uma mudança de vida. Não somos os mesmos nunca, impermanecemos em cada segundo que passa. E é por isso que principiar nos deixa inseguros. Meu consolo (ou eu tento acreditar) é que o presente é que fará do futuro um lugar acolhedor, deixar-se viver povoado por lembranças é uma maneira de agarrar-se ao que foi para não viver o que virá. Tenho minhas recordações, mas viver como se estivesse em um cemitério de memórias não fará minha vida mais leve. Deixar ir, seguir, romper com as amarras do meu medo somará luz e não sombras.

Começos nada mais são do que lidar com a incerteza. Ninguém pode garantir que dará certo. Os indícios são tênues, errantes, por medo de conseguir não tentamos. Perder ou ser perdido é um risco, um voo no escuro. Quem garante que não podemos usar óculos infra-vermelhos? Como no filme francês Até a Eternidade,a verdade sobre mim está no diálogo final entre dois personagens, quando assumem que sempre começam esperando que tudo dê errado, como se não merecessem o que de bom a vida lhes oferece. Também sou assim. Me saboto com a mais deslavada cara de pau que conheço, fosse homem sairia serragem. A estratégia defensiva que mais uso é não começar. E nem sempre depende de minha vontade, há conspirações silenciosas para Princípios, o que me deixa apavorada. Talvez a grande mudança é seguir em frente, sem medo, sem titubear. Quero a paz e a luz, o vento e a brisa, a coragem e a fragilidade. Ser quem sou da maneira mais mutante possível. E que a coragem seja meu lema.

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