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Quando a dor cega



A visão distorcida de emoções, sentimentos e valores cresce exponencialmente à medida em que somos mais conectados virtualmente e desconectados pessoalmente. Como desconhecemos nossos sentimentos, medos e traumas, lidamos com as situações de dor nas relações as denominando de intensas e apaixonadas, muitas vezes dizemos que são relações de amor. Incrível como é fácil chamar de amor e se relacionar com quem o (a) atormenta. Na verdade, ama a dor que o outro causa e se esconde atrás disso para não sair da história realmente e encontrar uma verdadeira relação de afeto. Afinal, ser infeliz é muito mais fácil do que feliz, na infelicidade e no tormento sempre há alguém para culpar. Ser feliz exige coragem em assumir que o caminho é seu, investir no outro e em si, dando e recebendo amor real. Exige, também, conhecer seus medos, traumas, desejos, o que quer, o que não quer e como quer se sentir na relação. Eu, por exemplo, demorei muito, uma vida, para entender que quero me sentir livre para ser quem sou ao lado de quem escolher, que sejamos livres juntos.

Vejo casos assim perto de mim ou perto das pessoas que conheço. Sempre há alguém que diz ah, os dois se amam, toda essa briga é amor. Não, queridos, não é. Atormentar tanto o outro na tentativa de desestabiliza-lo emocionalmente, ao ponto de que ele não consiga se ver longe de seu algoz afetivo é manipulação, controle e maldade. Uma pessoa fragilizada emocionalmente é mais fácil de manipular, de manter por perto. Agressões pessoais, verbais ou físicas são tudo, menos amor, aceita-las também não o é. É falta de amor, amor próprio e amor pelo outro. Mas, tenho observado e posso afirmar por mim e por muitas pessoas que conheço: o desamor é mais fácil de aceitar, talvez por ser o que conhecemos. O motivo disso talvez seja compreensível e complexo ao mesmo tempo, por ter raízes nas relações familiares, nos primórdios de sua vida em um ou vários episódios de desamor experimentados inadvertidamente, mas está nas nossas primeiras experiências de vida. Um pai ou uma mãe não erram por mal, na verdade, acredito que nesses casos, nem eles saibam o que é amor e como demonstra-lo. Culpa, medo, insegurança, tentativa de agradar para ser amado, rejeição (mesmo que inconsciente) tudo isso se reflete na vida adulta. 

Por algum tempo, podemos não experimentar relações a dois de desamor, ou podemos ser defensivos demais em relação, mas também, não experimentamos amor, não é a referência. Quem cresce aprendendo que confiança é quebrada, que desrespeito é regra, mesmo quando silencioso, terá dificuldades em reconhecer o amor, mesmo que ele venha identificado. Comigo foi assim, com você também pode ter sido. Minha sorte foi que apenas uma vez experimentei isso e consegui entender os motivos de ter entrado naquela relação, rompi com neuroses familiares e mudei completamente minha visão de relacionamentos ao dar um fim à situação. E os assediadores entram em nossas vidas, geralmente, quando estamos especialmente fragilizados ou desamparados. Podem disfarçar sua personalidade para angariar nossa confiança, mas, cedo ou tarde, revelam quem são. E pode ser um homem ou uma mulher, tanto faz, manipulação independe de sexo. Eles percebam que há uma vulnerabilidade emocional, traumas e neuroses e é aí que agem, em princípio, sutilmente, mas, quando acreditam que tem seu alvo no papo, atacam insidiosamente. 

O assediador ou foi criado sem limites ou também tem algum episódio de dor no seu passado, o que ele não conta é que usa essa dor para manter as pessoas por perto, manipula-las. Dificilmente pensará em tratar seus traumas, porque gosta deles e quer ser o centro das atenções, por bem ou por mal. Ele ou ela sugará você até transformar seu peito em dor e é na dor que você se vicia. Usa o sexo como fator preponderante da relação, desconsiderando o fato de que o outro pode, com o tempo, sentir que falta algo intangível, indefinível, por mais intenso e selvagem que o sexo possa ser. Pois é, o não-algo (já escrevi sobre anteriormente). Nos viciamos na dor, na infelicidade. Afinal, quando passamos muito tempo no inferno, aprendemos a apanhar e acreditamos que o diabo é nosso amigo (essa frase é minha). O inferno não são os outros, eles são apenas a representação dos monstros internos que carregamos no peito e insistimos em não conhecê-los. Essa pessoa é o gatilho da dor que está dentro de nós, a alimenta e faz crescer e ama o poder que isso lhe dá.

A dor cega, vicia, pesa, domina. A dor rouba a iniciativa, rouba os sonhos, rouba a vontade. Se, com sorte, você tem um eixo forte, consegue sair da relação sem olhar para trás. Mas o trauma e o medo ficam ali, para alguns é difícil livrar-se deles, para outros, é apenas um monstro que será enfrentado. Ter em mente que aquilo não é amor, que a dor é desamor, desrespeito, engano, doença, é um grande passo, assim como admitir que fez uma escolha errada. Comumente, se usa justificativas do tipo "no início não era assim", "tinha vezes em que nos dávamos bem", "o sexo era bom", "eu gosto dele(a)" são furadas, na verdade, quer encontrar motivos que justifiquem seu erro e a escolha feita. E, convenhamos, "eu gosto/amo" é quase uma capitulação, como dizer "sim, me maltrate, afinal, mereço". Essas relações, mesmo após findadas, são usadas como caverna, onde a pessoa se esconde.

Amor não dói, amor amadurece, amor enche o peito de calor e compreensão. Amar só dói se precisamos amadurecer e é uma dor boa, não ruim, afinal, toda mudança causa desconforto, mas é enriquecedor. Uma pena que há pessoas que ficam tão cegas pela dor das relações atuais ou passadas que não reconheceriam o afeto real e sincero em si e no outro nem que viesse identificado em letras luminosas. O apego a dor é tão forte, que viver de maneira mais leve parece difícil e não o é. Sou a prova viva disso, ganhei na auto-estima e no amor próprio (tem vezes em que quase sou narcisista, risos), ganhei na percepção do mundo e me humanizei mais, descobri uma sensibilidade antes renegada, voltei a escrever, voltei a, finalmente, amar muito a pessoa que encontro no espelho todas as manhãs. Parei de julgar tanto, embora ainda o faça, compreendi mais as motivações reais por detrás das atitudes minhas e do outro. Principalmente, aprendi o que realmente quero e como quero me sentir em uma relação e o olhar que desejo enxergar sempre que fitar aquele a quem um dia irei amar. 

A principal lição, porém, é difícil de ser compreendida pelos humanos: nunca estaremos preparados para amar, pois o sentimento chega sem aviso e pode ser assustador, profundo, inexplicável. Não é a situação financeira, não é o momento da vida, aliás, não há um momento ideal para envolver e deixar envolver. E não é aquela história turbulenta, amor é como aquele rio subterrâneo, quase imperceptível, mas sabemos que existe. Apenas não percebemos a profundidade de suas águas. Ele está ali, caudaloso, pulsante de vida. E livre. 


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