Pular para o conteúdo principal

No próximo ano, lambuze-se



Os votos dessas festas de final de ano são iguais e repetidos ad infinitum mundo afora pela sua família, vizinhos, amigos, desconhecidos, desconfio de que até os mortos os repetem em seus túmulos. Blábláblá sem emoção jogado ao vento e nos ouvidos incautos de quem foge dessa hipocrisia morna e irritante. Portanto, serei sincera: desejo que nesse próximo ano, você se lambuze. Fique com o rosto sujo e a alma respingada pelo lambuzo. Descasque uma manga e coma sem cortar em pedaços, sinta o suco escorrendo pela sua boca, as mãos meladas. Lambuze-se. Vá mais vezes à pracinha de brinquedos com seus filhos e se lambuze de areia, sujeira e amor. Abrace sua mãe e seu pai, faça mais brincadeiras irônicas com seus irmãos, evite a irritação com comentários alheios. Lambuze-se de tolerância. Sinta que você pertence a você, mas permita que alguém se lambuze de você. Permita que se lambuze com suas palavras, seus gestos, suas atitudes, seus olhos, seu corpo.

No próximo ano, lambuze-se de amor-próprio, de pequenos mimos só seus. Lambuze-se de reinvenções, de renascimentos, de evolução. Lambuze-se de amizades, de conversas despreocupadas, de sorrisos, de sua bebida predileta. Lambuze-se de quem você gosta e lambuze-se da distância de quem faz mal para você. Lambuze-se de aprendizado sobre quem é, do que precisa mudar e de objetivos cumpridos. Lambuze-se de sinceridade, de reciprocidade, não aceite menos do que isso. Lambuze-se de leveza, de calmarias, de diversão. Lambuze-se com livros, filmes e, no meu caso, sapatos novos. Lambuze-se de serenidade e de sua própria companhia. 

Deixe que alguém lhe ame, afinal, acredito piamente que desaprendemos a ser amados e, consequentemente, a amar. Lambuze-se de quem gosta de você, lambuze-se da atenção recebida e, principalmente, dos sentimentos que esse alguém lhe desperta, de inteirezas e não de metades. Lambuze-se da boca, do peito, do sexo, dos pelos e saliva do outro. Lambuze-se de sacanagem, trepadas e carinho. Sim, sexo pode ser depravado e cheio de afeto. Então, lambuze-se. Aceite seu coração, seu desejo.

Lambuze-se mais de realizações do que projetos, mais de vivências do que de arrependimentos. Lambuze-se de aprendizados, afinal, os erros são inevitáveis. Lambuze-se do que lhe faz bem e de cerveja para aguentar o que não faz. Lambuze-se de si, use menos medicações. Movimente-se, libere sua energia. Lambuze-se do sol, se é o que lhe agrada e da chuva, se combina com seu humor. Viva com a boca lambuzada do que lhe agrada e de quem lhe agrada. Se não for possível lambuzar-se de tudo isso junto, ao menos do que é essencial.  

Então, para o próximo ano, lambuze-se. E muito! 

Feliz ano-novo!


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

De onde vem os poemas

Fiquei anos sem escrever poesias ou textos porque faltou o ingrediente principal das minhas transpirações e inspirações: sentimento. Sim, clichê, não é? Justo eu, que sempre fiquei alguns graus fora do ângulo, cometo esses clichês e ou lugares comuns. Mesmo querendo fugir, tropeço nesse troço insondável chamado amor e suas implicações ora leves, ora duras e que tão lindamente me fazem sentir a vida correndo nas veias e deslizando para meus textos e poesias. Para minhas palavras atingirem fulminantemente o cérebro e os corações alheios primeiramente o meu cérebro e meu coração precisam estar flechados e perplexos com emoções indizíveis e mágicas. Sim, acredito na magia dos momentos e na poesia suave que pode ser criada a partir de um sentimento. Meu coração precisa ter um tanto de ideias e um tanto de pessoas dentro dele para que as emoções fluam e se transformem em poesias e textos. Para que eu flua e me transforme em poesia. Um equilíbrio de emoções que até podem parecer...

Eu em mim

Eu estive aqui ontem. Hoje, sou outra a surgir. Eu estive aqui há um mês. Hoje, não quis voltar a dormir. Eu estive lá há um ano. Voltei agora e eu não sou o mesmo lugar. Eu me apaixonei há quatorze meses. Hoje, sou outra e não amo. Eu amei profundamente há três anos. Hoje, lembro com um afeto intenso, mas é outro o coração que pulsa. Eu me namoro hoje. Há oito meses queria morrer. Não sou a mesma em mim, mas somos as mesmas em processo de mudança. A Claudia melancólica, a Claudia fechada, a Claudia vibrante, a Claudia sombria, a Claudia falante. A Claudia quieta. A Claudia poeta. A Claudia que é a água de um rio, o sopro do vento, a chama da vela e a floreira da orquídea. A Claudia que me habita e a quem amo muito. A desesperança e o desânimo são intangíveis e impermanentes.  Meu amor por mim é árvore, que cresce um pouco todos os dias. Sou eu em mim, na mudança do hoje e do amanhã.

Dessas cartas de amor

Tento escrever sem parecer clichê ou piegas, mas as palavras que são tão fáceis de encontrar parecem fugir de mim. Talvez eu esteja envergonhada ou subitamente tímida, veja só. Mas você causa isso e muito mais em mim. Sei que pode ler meus escritos antigos e pensar que é mais um ou que sou volúvel, a verdade é que os outros foram o caminho, você sempre foi e é meu destino. Aliás, somos o destino um do outro. Você sabe. Sei que gostaria de não sentir o que sente e até ensaiou fugas, sei que está surpreso e confuso. Você não é perfeito e comete falhas, saiba que a perfeição está longe de mim. Então o aceito como é, meu amor enxerga seus defeitos e problemas e isso o faz humano. Hoje em dia, todos querem pessoas perfeitas, relações sem dificuldades, gente sem problemas, porém somos reais e carregamos uma bagagem de vida que nos deixa inseguros, orgulhosos, covardes, assustados. Essa é a vida, a vida possível. Em alguns momentos é pesada e rouba a espontaneidade, quero que a gen...